Utilizado em epidemias, fumacê pode gerar problemas respiratórios

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O novo coronavírus vem chamando atenção dos órgãos de saúde, mas uma possível epidemia de dengue no Ceará, em 2020, é alertada desde o ano passado. Um dos cuidados contra a propagação das arboviroses, que incluem também chikungunya e zika, é a dispersão do inseticida popularmente conhecido como fumacê. No entanto, sem o uso indiscriminado, já que a exposição prolongada à substância pode trazer problemas respiratórios em humanos e matar outros insetos importantes para os ecossistemas.

“Mesmo recomendado pela OMS (Organização Mundial da Saúde), ele é um inseticida; o nome já diz tudo. Na prática, se as pessoas passam por uma exposição prolongada, elas podem sim ter problemas respiratórios e quadros alérgicos”, observa Luciano Pamplona, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC). “Além disso, em locais arborizados, ele mata outros insetos importantes para aquele ecossistema, como borboletas e abelhas”, completa.

O Aedes aegypti é atingido quando as gotas do inseticida batem em suas asas durante o voo. Por isso, quando a nuvem branca chega às residências, o ideal é que os moradores deixem o local junto com animais de estimação. “É importante as pessoas abrirem portas e janelas. Se o mosquito está atrás da geladeira, embaixo da cama, lá no quintal, e o inseticida não chegar até lá, não tem efeito nenhum”, explica Pamplona.

1.564 locais com alto risco
Em Fortaleza, borracharias, sucatas e canteiros de obras são áreas propícias para a proliferação do mosquito e, por isso, são monitorados sistematicamente. Quando são encontrados focos de modo recorrente, Agefis autua os proprietários.

Entre 2016 e 2019, o Ceará recebeu 174 mil litros do inseticida Malathion, de acordo com a Secretaria Estadual da Saúde (Sesa). O insumo, um agrotóxico organofosforado, é distribuído exclusivamente pelo Ministério da Saúde aos Estados, que repassam aos Municípios. Em 2020, o Ceará solicitou 10 mil litros do inseticida para uso no primeiro trimestre, mas o Ministério só autorizou o envio de 5,4 mil litros. Segundo a Coordenadoria Geral das Arboviroses, a remessa do produto Cielo está prevista para o mês de março.

Aquisição

Para complementar o déficit, a Sesa anunciou que iria comprar, por conta própria, mais 10 mil litros de Cielo, como informou o titular da Pasta, Dr. Cabeto, em evento com representantes dos municípios cearenses, no mês de janeiro. Atualmente, segundo a Sesa, o processo está em fase de licitação.

O Ministério da Saúde informou que o Cielo, novo adulticida formado por praletrina e imidacloprida, “já está em processo de testes” e deve substituir o outro veneno. Desde maio de 2019, o Brasil está desabastecido do Malathion porque se constatou uma grande quantidade de produtos vencidos ou com problemas de qualidade por alterações químicas em sua formulação.

Em 2018 e 2019, o Ceará recebeu 48 mil litros do Malathion EW 44%. Em nota, o Ministério da Saúde disse que os produtos utilizados no País “seguem os padrões e metodologia da Organização Mundial da Saúde (OMS)” e que “todo o produto contratado é fornecido nos termos mais exigentes e seguros de normas técnicas e operacionais para utilização de inseticidas em saúde pública”.

O médico Luciano Pamplona destaca a importância do fumacê como medida de controle em áreas urbanas, mas somente em períodos epidêmicos e com utilização bem planejada. Ele também alerta que entidades privadas, como condomínios, não devem utilizar a dispersão de inseticidas com frequência.

“Se usar o tempo todo, o que acontece naturalmente, da mesma forma dos antibióticos, é que os mosquitos vão selecionar resistência contra ele. E, num momento de epidemia que eu precise usar o inseticida, ele não vai mais matar os mosquitos”, explica, dizendo que a melhor forma de combater o Aedes aegypti é evitando que ele nasça – ou seja, cuidando de criadouros nas residências.

O fumacê elimina apenas a fase adulta do mosquito por meio da nebulização realizada por máquinas acopladas a veículos e bombas costais. Cada veículo pode cobrir de 80 a 120 quarteirões por dia, de acordo com a coordenadora de Vigilância Epidemiológica e Prevenção em Saúde da Sesa, Ricristhi Gonçalves. As aplicações são recomendadas normalmente de 5h às 8h30 e de 17h às 20h. “Com equipamento costais, estes horários podem ser estendidos”, garante.

48 mil litros
O Estado recebeu 23 mil litros de inseticida em 2018 e 25 mil em 2019. O composto enviado pelo Ministério da Saúde foi o Malathion EW 44%, que será substituído por um novo após serem constatados problemas de qualidade.

O horário e a temperatura fazem diferença, além da calibragem das máquinas. Segundo Luciano Pamplona, antes da dispersão, é preciso verificar o tamanho das gotas. “Se a gota for muito pequena, ela vai subir e não vai pegar o mosquito. Se for muito pesada, vai cair. A ideia é que ela fique num tamanho que fique no ambiente por alguns minutos, quando a temperatura estiver mais amena. Porque, se jogar meio-dia, o sol vai desmanchá-la rapidamente”, descreve o médico. Chuvas e ventos fortes também dificultam a aplicação.

Ciclos

Questionada sobre a aplicação em 2020, Ricristhi Gonçalves, da Sesa, afirma que as operações nos municípios dependem da análise do cenário de transmissão das arboviroses. São, no mínimo, três ciclos de aplicações. “Após esse primeiro momento, é realizada uma avaliação entomo-epidemiológica para ver a necessidade de ciclos complementares”, destaca.

Neste ano, até a primeira semana de fevereiro, o Ceará já registrou 173 casos confirmados de dengue e 11 de chikungunya, sem óbitos, de acordo com o boletim epidemiológico mais recente da Sesa. Em 2019, em todo o Estado, foram 15.175 casos confirmados da dengue – 3.888 apenas em Fortaleza -, com 13 mortes; 1.065 confirmações de chikungunya e 23 de zika vírus, ambas sem mortes.

Na Capital, o coordenador da Vigilância Ambiental da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), Nélio Morais, informa que o bairro Siqueira já começou a receber a atuação de agentes com bombas costais – método mais eficaz porque é mais localizado, porém mais difícil de aplicar em larga escala. Outros bairros podem ter a aspersão do fumacê somente após a aferição de dados epidemiológicos.

Nélio considera que todo produto químico pode causar danos, mas os produtos usados no meio urbano são adequados seguindo normas técnicas e possuem em baixa toxicidade. “Em relação aos produtos químicos, não temos grandes inovações, mas precisamos ter muito critério senão criamos resistência maior no Aedes. Aqui, ele já tem porque, desde a década de 1980, o inseticida foi utilizado com maior intensidade”, lembra.

Fumacê é utilizado em áreas com grande infestação do mosquito e com maior registro de arboviroses. Especialistas concordam que ele é uma medida de controle importante, mas que seu uso, mesmo seguindo normas técnicas, deve ser controlado

Diário do nordeste


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