Cresce número de ataques a carro-forte no Ceará no 1º semestre

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carro-2O número de ataques a carro-forte no primeiro semestre deste ano no Ceará já supera o total do ano passado, de acordo com a Associação Brasileira das Empresas de Transporte de Valores (ABVT). De janeiro a junho, foram nove ataques, enquanto que nos 12 meses de 2017, foram seis. Em 2016, os ataques somarem cinco. Em todo o Nordeste, ocorreram 46 ataques no primeiro semestre deste ano.

A associação e funcionários de empresas de segurança citam problemas nas estradas, falta de fiscalização e precariedade na manutenção dos veículos como causa do aumento dos ataques.

Segundo a ABTV, uma explicação para o Nordeste concentrar grande parte dos ataques está nas estradas esburacadas em regiões inóspitas, praticamente sem fiscalização, abandonadas pela polícia. Tendo de percorrer grandes distâncias em velocidades mais baixas, os carros-fortes se tornam alvos fáceis para quadrilhas que bloqueiam rodovias e explodem os veículos para roubar dinheiro.

Ataques contra carros-fortes no Ceará no 1° semestre de 2018 (Foto: Juliane Souza e Karina Almeida)Ataques contra carros-fortes no Ceará no 1° semestre de 2018 (Foto: Juliane Souza e Karina Almeida)

Ataques contra carros-fortes no Ceará no 1° semestre de 2018 (Foto: Juliane Souza e Karina Almeida)

“O mais complicado é a falta de comunicação em pontos estratégicos onde os bandidos já mapearam que não pega celular. Não temos rádio para comunicação com a empresa, apenas um aparelho celular que nem sempre funciona, pois em muitos trechos não tem sinal”, ressalta um vigilante de empresa de transporte de valores que pediu para não ser identificado.

Um dos ataques da estatística ocorreu em 5 de abril, quando um bando trocou tiros com seguranças de um carro-forte e explodiu o veículo no quilômetro 73 da BR-222, em São Luís do Curu, no interior do Ceará. Os criminosos usaram reféns – retirados de um ônibus que trafegava pela via – como “escudo-humano”. Conforme relato de testemunhas, o bando usava armas de grosso calibre e explosivos. Eles fugiram em quatro veículos.

Segundo relatos de vigilantes ao G1, esse trecho é um dos mais inseguros. “O trecho mais perigoso é a rodovia BR-222, na chamada Curva dos Frios, entre os municípios de São Luís do Curu e Umirim. Lá não pega celular e se formos atacados, temos de esperar que algum motorista passe para nos socorrer, para chamar a polícia.”

‘Novo cangaço’

Para Jeferson Nazário, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Transporte de Valores no Nordeste o que predomina é a ação do “novo cangaço”, que seria uma forma de abordagem desses criminosos com uso de armamento de fogo de alta capacidade de destruição (fuzil, submetralhadoras, pistolas).

“As armas que usamos são antigas: duas pistolas calibre 12, quatro revólveres calibre 38 e um rifle, além de 50 munições extras. Enquanto isso, os bandidos utilizam armas poderosas, como bombas e fuzis AR-15”, relata.

“Eles [criminosos]se sentem importantes pois seus armamentos são superiores aos que nós temos, como fuzil AR-15. Além disso, com a dificuldade de comunicação, a polícia demora a chegar e o armamento dela [da polícia]também é inferior”, confirma um vigilante.

Secretaria de Segurança e PRF

A Secretaria de Segurança Pública do Ceará afirma que ocorreram seis, e não nove, ataques a carros-fortes no estado neste ano. O G1 noticiou oito casos desse tipo de crime no período.

“É importante reforçar ainda que as ações das forças de segurança cearenses, por meio do trabalho ostensivo da Polícia Militar do Ceará (PMCE) e também de investigações conduzidas pela Delegacia de Roubos e Furtos (DRF) da Polícia Civil, neste ano, resultaram ainda nas prisões de 19 pessoas envolvidas nesse tipo de crime”, destaca a pasta.

A secretaria afirma ainda que formou 30 policiais militares para reforçar o Batalhão de Divisas, “cujo trabalho visa principalmente combater esses grupos criminosos”.

A Polícia Rodoviária Federal destacou que “está muito sensível a esse problema dos assaltos a carros-fortes nos trechos das rodovias federais”. A PRF afirma que atua de duas formas para coibir os ataques: com policiamento ostensivo e com a atuação do Núcleo de Inteligência.

O Núcleo “mapeia esses dados, faz um tratamento em análise para fornecer subsídios para as atividades operacionais e também parcerias com os órgãos externos, como a Inteligência da polícia militar, polícia civil e federal, trabalhando com trocas de informações, subsidiando um ao outro, de modo que possa ser identificado os líderes e os integrantes dessas facções e num futuro próximo atuar na prisão”.

O dia a dia no carro-forte

“Os carros de transporte de valores são sucateados, sem manutenção”, denuncia um dos vigilantes. Segundo ele, os para-brisas têm pouca visibilidade e a manutenção do veículo deixa a desejar. “Não existe uma manutenção preventiva. Nós não nos sentimos seguros carregando valores de até R$ 3 milhões sem armamento adequado e em um veículo que está sempre precisando de manutenção.”

Em um carro forte, quatro pessoas cuidam da segurança do transporte: o motorista, o chamado vigilante fiel – que viaja ao lado do motorista – e duas pessoas de escolta, que viajam na carroceria, protegendo o cofre.

Por obrigação legal, o transporte de grandes valores precisa ser feito por uma empresa especializada ou pelo estabelecimento financeiro, desde que organizado e preparado para isso, com pessoal próprio, aprovado em curso de formação de vigilante autorizado pelo Ministério da Justiça.

Cédulas ficaram espalhadas pela via após explosão de veículo (Foto: Arquivo pessoal)Cédulas ficaram espalhadas pela via após explosão de veículo (Foto: Arquivo pessoal)

Cédulas ficaram espalhadas pela via após explosão de veículo (Foto: Arquivo pessoal)

‘Já chegaram efetuando disparos’

Relatos de dois profissionais ao G1 mostram o clima de insegurança e de medo pelos quais passam os vigilantes que trabalham com transporte de valores. O primeiro, ocorreu no dia 28 de maio deste ano, no município de Umirim. O veículo foi explodido por um bando de cerca de 10 criminosos.

A força da explosão destruiu por completo o carro-forte e espalhou o dinheiro – cédulas de R$ 100 e R$ 50 – que estava em malotes pela pista. O bando recolheu parte da carga e fugiu, utilizando três veículos.

“Em um dos ataques, estávamos transportando R$ 2,5 milhões, pela BR-222, perto de São Luís do Curu. O trecho está em obras e das duas pistas uma é mais elevada e a outra mais baixa. A elevada estava em obras e tivemos de seguir pela pista baixa. Um carro nos ultrapassou e parou logo à frente, fechando a estrada”, conta.

“Desceram atirando. Mandaram que a gente saísse do carro e nos levaram a uma distância de 15 metros, aí explodiram o carro-forte. Depois nos obrigaram a recolher o dinheiro. Quando eles fugiram, ainda tivemos que conter a população que caiu em cima das cédulas que ficaram: a gente tinha que resguardar o que sobrou.”

Um outro vigilante afirma que precisou de acompanhamento médico, vive à base de calmantes e foi demitido pela empresa em que trabalhava por ter reagido ao ataque. Na Justiça, ele briga por reintegração aos quadros da empresa.

“Sofri um ataque de bandidos muito bem armados. Eles já chegaram efetuando disparos nos pneus e no motor: passaram uns 15 minutos atirando, era muita munição.”

“Como a gente demorou a descer, eles colocaram a bomba embaixo do carro, ainda com a gente dentro – eu e mais três. Uns 30 segundos depois que a gente desceu, a bomba explodiu”.

“Não desejo a ninguém o que passei. Passei por abalo psicológico e até hoje vivo a base de remédios. Não tive nenhum apoio da empresa”, finaliza.

Ataques a carros-fortes no Nordeste desde 2016 até o 1° semestre de 2018 (Foto: Juliane Souza e Karina Almeida)Ataques a carros-fortes no Nordeste desde 2016 até o 1° semestre de 2018 (Foto: Juliane Souza e Karina Almeida)

Ataques a carros-fortes no Nordeste desde 2016 até o 1° semestre de 2018 (Foto: Juliane Souza e Karina )

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